Doutores na Mídia >> 13/08/2010 - UOL Ciência e Saúde
Veja respostas para dúvidas comuns sobre vacinação
Toda vacina pode causar efeitos colaterais, mas reações graves são extremamente raras, garantem os médicos. Mesmo assim, muita gente ouve boatos e fica com dúvidas. Veja, abaixo, algumas dúvidas comuns sobre a imunização e a resposta dos profissionais ouvidos pelo UOL Ciência e Saúde:
O sistema imunológico natural é melhor do que a vacinação?
Uma infecção permite que o sistema imunitário reaja de forma adequada, determinando proteção permanente para quase todas as doenças. Mas doenças como a varicela, que habitualmente é benigna, podem levar à pneumonia; a poliomielite, à paralisia permanente; a caxumba, à surdez. E a vacinação pode prevenir essas doenças e suas graves consequências.
Vacinas causam autismo?
Não. Apesar da controvérsia sobre o assunto, os pesquisadores não encontraram conexão entre essa doença e vacinas infantis. Embora os sintomas do autismo se manifestem no mesmo período em que as crianças estão sendo vacinadas, trata-se apenas de uma mera coincidência.
Os efeitos colaterais das vacinas são perigosos?
Em geral, toda vacina pode gerar efeitos colaterais leves, como febre, dor, rubor e inchaço local. Algumas delas podem causar dor de cabeça, tontura, cansaço e perda de apetite. São raras as reações alérgicas graves ou neurológicas. Embora esses sintomas possam ser preocupantes, as vacinas são mais seguras do que as doenças que elas previnem. Somente quando reações alérgicas graves a componentes específicos das vacinas são conhecidos é que a criança não deve ser vacinada.
Por que as crianças são vacinadas tão cedo?
Elas são essenciais, pois servem para prevenir doenças que acometem as crianças na primeira infância, exatamente quando o risco de complicações é maior. Mais tarde, pode ser tarde demais.
Posso escolher as vacinas que meu filho tomará?
É desaconselhável não seguir o programa de vacinação. Se há preocupação sobre determinada vacina, a melhor a fazer é consultar o pediatra. Deixar de vacinar uma criança a deixa vulnerável a doenças graves que poderiam ser evitadas.
Fontes: Dr. Gabriel Oselka, pediatra, professor assistente dos Deptos. de Pediatria e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP); Dra. Helena Sato, pediatra, diretora técnica da Divisão de Imunização da Secretaria de Saúde de São Paulo; Dr. Juarez Cunha, pediatra do Hospital das Clínicas de Porto Alegre (HCPA), membro do núcleo de pesquisa em vacinas do HCPA e médico da Secr. Municipal de Saúde de Porto Alegre (RS); Prof. Luiz Jacintho Silva, departamento de Clínica Médica da Universidade de Campinas (Unicamp)- Área de Infectologia; Dr. Renato de Avila Kfouri, pediatra e Diretor da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm); Dr. Sylvio Renan Monteiro de Barros, pediatra e membro da Sociedade Brasileira da Pediatria.
Resistência a vacinas hoje é pouco comum, mas nem sempre foi assim
Qual é a maior preocupação das mães quando o assunto é a saúde dos filhos? Uma recente pesquisa realizada com apoio da farmacêutica Pfizer, mostrou que as doenças graves são o principal receio de 73% das entrevistadas. Para 50% delas, a vacinação é o melhor meio de proteção contra essas patologias. Isso explica porque a Campanha Nacional de Vacinação contra a Paralisia Infantil (poliomielite), cuja segunda fase acontece neste sábado (14), é considerada um sucesso pelas autoridades sanitárias. A adesão é de mais de 90%, o que representa a participação de cerca de 15 milhões de crianças.
Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde a vacinação é compulsória mas existem fortes movimentos contrários, a aceitação e a credibilidade da imunização no Brasil já faz parte da cultura da maioria das famílias, pelo que mostram os números. “É muito raro que jovens pais cheguem ao consultório com uma opinião formada sobre não vacinar”, afirma o pediatra Sylvio Renan Monteiro de Barros, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). “Em 30 anos de carreira, tive apenas um caso e, diante de meus argumentos, os pais preferiram mudar de médico.”
Já Renato de Ávila Kfouri, pediatra e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), diz que nunca teve um paciente cujos pais se recusaram a fazê-lo, em 20 anos de experiência. Na sua opinião, se ainda existem pessoas que resistem à vacinação, elas são movidas por convicções pessoais. Outra razão para isso seriam as orientações de alguns médicos que, no livre exercício de sua especialidade, são fiéis à crença de que o sistema imunitário da criança é robusto o suficiente para não permitir que ela seja infectada. “Outro motivo para esse comportamento são as campanhas que colocaram em discussão o papel das vacinas, e que se baseavam em estudos feitos no passado”, diz.
Pesquisa falsa
Kfouri se refere à polêmica que envolveu autismo e a vacina tríplice (contra sarampo, caxumba e rubéola). No ano de 1998, o cientista Andrew Wakefield publicou um estudo, cujo resultado levava a crer que a causa da doença era a vacina. Em 2000, outra pesquisa levantou a hipótese de que o timerosal, um conservante à base de mercúrio, também poderia estar relacionado ao mesmo mal.
Nos anos seguintes, muitas pesquisas foram realizadas por pesquisadores diferentes, observando populações e países diversos. Todas negaram a associação entre vacinas e autismo. Desde 2002, o conservante foi removido por precaução das vacinas, mas os casos da doença não diminuíram. No final, o trabalho de Wakefield foi considerado falso e, apesar do envolvimento de políticos e até artistas como Jim Carrey, cientificamente o assunto foi considerado superado.
Mas o autor do estudo polêmico não se deu por vencido. Apesar de ter sido cassado pelo seu órgão de classe, ainda defende a tese de que a aplicação simultânea de vacinas enfraquece o sistema imunitário, estimulando uma reação do sistema nervoso para o desenvolvimento da doença.
Para Kfouri, todo esse debate tem seu lado positivo: “Apesar de tudo, trata-se de um fato importante na história das vacinas, pois trouxe a possibilidade da crítica, e ainda suscitou uma maior vigilância para a avaliação de causas e efeitos, reforçando a importância do monitoramento de casos”.
Revolta da Vacina
As vacinas sempre foram objeto da desconfiança da população, seja no exterior como no Brasil. Em 1870, na Europa, além de ser desacreditada, a vacinação compulsória foi considerada violação dos direitos civis. Aqui, no início do século 20, o Rio de Janeiro carecia de saneamento básico. A cidade era foco de doenças como febre amarela, varíola e peste.
Uma iniciativa política elegeu o médico Oswaldo Cruz para a solução do problema, e ele criou brigadas sanitárias. O objetivo era matar e comprar ratos, coletar lixo, e combater os mosquitos. A ação seguinte foi a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Ninguém acreditava que ela funcionasse, e as ações do governo para impor o cumprimento da lei foram consideradas humilhantes e truculentas. A iniciativa desencadeou um confronto entre o povo, a polícia e o exército. O evento ficou conhecido como a Revolta da Vacina.
Segundo os especialistas, é compreensível que a imunização seja objeto de crenças infundadas, pois se trata de um medicamento utilizado por quem não tem doença. “A ideia é prevenir, mas se essa é uma ação governamental, gera certa desconfiança”, fala Luiz Jacintho Silva, professor do departamento de clínica médica da Universidade de Campinas (Unicamp). “As pessoas se perguntam, se é o governo que está fornecendo, será uma coisa boa?”.
Informação
Silva observa que atualmente vivemos numa época em que as pessoas não têm a mínima ideia do que são doenças como sarampo, varíola, poliomielite, e como elas podem ser graves e ter consequências fatais. “Essa realidade só foi possível por causa das vacinas. Porém, a dúvida de alguns pais pode ser: por que devo vacinar meu filho contra o sarampo se nunca vi essa doença?”
“Vacinação requer esclarecimento”, concorda Tânia Petraglia, professora da pediatria da Universidade Estácio de Sá, responsável pelo Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (Crie-RJ) e membro do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj). “E as pessoas mais indicadas para isso são os pediatras”, completa.
A pesquisa patrocinada pela Pfizer mostrou que, além dos médicos, aptos para esclarecer todas as dúvidas dos pais, programas de TV, revistas sobre bebês e crianças, e a internet são as fontes de informação mais citadas pelas mães.
Mas Jacintho se mostra pessimista quanto ao futuro: “Acredito que a resistência de algumas pessoas possa se agravar, pois se elas não veem uma doença circulando, podem não se disponibilizar à vacinação”, conclui.
Fonte: UOL Ciência e Saúde